Terça-feira, 23 de Janeiro de 2007

LEILA MARQUES EM ENTREVISTA AO SITE DA ORDEM DOS MEDICOS

A Dr.ª Leila Marques, portadora de malformação congénita do ante-braço direito, é por excelência a melhor nadadora portuguesa paralímpica que nunca lutou pela fama e protagonismo, mas que sonhou ter o seu momento de glória.
Com abnegação, persistência, esforço e apoio familiar, esta especialista de Medicina Geral e Familiar, cedo viu concretizado o seu sonho ao conquistar inúmeras medalhas de ouro, prata e bronze, para além dos recordes nacionais e mundiais, o que só foi reconhecido pela Câmara de Loures, onde está sedeado o seu clube de sempre a “Gesloures”


Medi.com - Os seus primeiros títulos nacionais na classe S9 registaram-se em 1994, em 200m Estilos, 100m Costas, 100m Bruços e 50m Livres, o que quer dizer que fez quase um pleno. Isto aconteceu no mês em que completava os 13 anos de idade.
Naturalmente que antes disto existiu toda uma preparação que a levou a vencer estes títulos nacionais. Como é que se iniciou nesta modalidade desportiva?

Dr.ª Leila Marques - Comecei a praticar natação aos 3 anos de idade por indicação médica. À partida sabíamos que a diferença ao nível dos membros superiores me traria consequências em termos posturais. Como é do conhecimento geral, a natação é o desporto de eleição no que diz respeito a corrigir patologias da coluna. Após a adaptação ao meio aquático aprendi as quatro técnicas e aos 12 anos de idade ingressei na equipa de natação adaptada do meu clube, a Gesloures.

Uma esperança do desporto paralímpico

M.com – Em termos internacionais registou dois terceiros lugares nos 50m livres, na Taça da União Europeia Integrado. Posto que tinha ganho a nível nacional no ano anterior, e que repetiu logo no ano seguinte em termos europeus. Que balanço fez nessa altura no que respeita ao seu futuro como atleta?

Dr.ª L.M. - A taça da união europeia Integrada foi o 1º evento internacional em que competi. Esta decorreu em Lisboa e como tal tive o apoio da família e amigos na piscina. Todo este apoio juntamente com o trabalho desenvolvido ao longo da época desportiva proporcionou a obtenção de bons resultados. Passei a partir desse momento a ser considerada uma esperança do desporto paralímpico. Perspectivava-se um futuro risonho.

Esforço compensado

M.com – No Campeonato de Portugal de Natação de 1997 foi distinguida como a “Melhor Atleta Feminina”, ou seja, aos dezasseis anos de idade. Isto serviu como incentivo para a brilhante carreira desportiva que se tem mantido até hoje?

Dr.ª L.M. - Ao ser considerada a “Melhor Atleta Feminina” do evento senti que todo o esforço e empenho dispendido ao longo da época tinham sido compensados. Seguia-se a este evento o Campeonato da Europa e parti cheia de vontade de lutar pelos lugares cimeiros e de obter novos máximos nacionais.
Este ano a emoção repete-se dado que estou nomeada pela Confederação do Desporto de Portugal para “Melhor Atleta Feminina do Ano”. O orgulho bem como a ansiedade são grandes pois estou nomeada juntamente com atletas como Vanessa Fernandes e Ticha Penicheiro entre outras.

Preconceitos e mentalidades

M.com – Os Jogos Paralímpicos são quase sempre arredados para segundo plano em Portugal, em termos da Comunicação Social e até do público em geral que vê no atleta deficiente um ser estranho, só porque sendo igual aos outros, estes os consideram diminuídos. A que é que atribui este tipo de comportamento?

Dr.ª L.M. - Actualmente ainda se parte do pressuposto que uma pessoa deficiente não consegue ser eficiente. Mentalidades e preconceitos levam tempo a ser alterados.
O desporto paralímpico é ainda hoje arredado para 2º plano porque o público em geral e a comunicação social continuam a desconhecer que se trata de um desporto de alto rendimento. Julgam ainda que se trata apenas de uma forma de reabilitação e de integração na sociedade.
É necessário que o público e os jornalistas se desloquem até aos complexos desportivos para realmente perceberam que é desporto de alta competição.

Bolsa inferior à dos atletas ditos “normais

M.com – Os atletas profissionais das modalidades olímpicas têm um determinado apoio do Estado, que passa por receberem uma subvenção mensal, pagamento de transportes, de técnicos e de massagistas, entre outras coisas. Que tipo de apoio é que tem por parte do Estado, ou da Federação Portuguesa de Desportos para Deficientes?

Dr.ª L.M. - Os apoios ainda se encontram bem aquém do que é necessário. É o meu clube, a Gesloures, quem mais me tem apoiado. Faculta um técnico destinado apenas à equipa de natação adaptada, fisioterapeuta e as instalações desportivas. Comparticipa competições e estágios a nível nacional.
Sou patrocinada pela Allianz, Arena e Clube Quinta das Conchas, que para além do apoio motivacional oferecem também apoio monetário, material desportivo e de serviços.
Por parte do Estado recebo uma bolsa mensal por fazer parte do Projecto Pequim 2008. É de realçar que esta bolsa é bastante inferior à dos atletas ditos “normais”. Situação semelhante se passa como os prémios referentes a medalhas alcançadas em competições internacionais.
No que diz respeito à Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes esta tem desenvolvido acções de divulgação e angariação de patrocinadores que são de louvar. Através desses patrocinadores particulares fornece aos atletas paralímpicos uma bolsa mensal correspondente ao projecto “Super Atleta”.

Atletas e treinadores adiantam verbas para competir

M.com – Já tem acontecido que em provas internacionais, onde o atleta representa o País e não o clube que o apoia, alguns desses mesmos atletas são impedidos de participar por falta de dinheiro para as deslocações e outras despesas inerentes ao torneio em causa. Isso já aconteceu consigo?

Dr.ª L.M. - Actualmente essa situação já não se verifica. Recordo-me de se ter passado nos Jogos Paralímpicos de Barcelona 92 onde os atletas e treinadores tiveram que adiantar algumas verbas para se poderem deslocar e competir.
Quanto a mim, dado que os apoios monetários não são os desejados tenho por vezes que optar por uma prova em detrimento de outra.

Lutei para ser equiparada aos ditos “normais”

M.com – Normalmente, as pessoas que são deficientes como é o seu caso, portadora de malformação congénita no ante-braço direito, distinguem-se das outras pessoas pelo seu elevado esforço e sacrifício, que na maior parte dos casos significa mostrar que são tão bons ou melhores do que aqueles que se consideram”normais”. É este o seu caso?

Dr.ª L.M. - Cresci numa família que sempre me fez crer que era tão válida quanto todos os outros. Lutei e esforcei-me sempre ao máximo para poder ser equiparada aos ditos “normais”.

Sonhei com o meu momento de glória

M.com – Uma vez que se iniciou na Natação com tenra idade, sonhou alguma vez ser a campeão que todos reconhecemos?

Dr.ª L.M. - Durante a minha infância apenas pretendia desfrutar da sensação de liberdade que a natação me dava. A partir do momento em que ingressei na equipa de natação adaptada da Gesloures os objectivos tornaram-se outros. Nunca sonhei com fama ou protagonismo mas sonhei desde sempre em ter o meu momento de glória.

A melhor colaboração no Centro de Saúde de Odivelas

M.com – Na qualidade de atleta paralímpica, tem necessariamente de treinar muito e diariamente. De que excepções goza no Centro de Saúde de Odivelas, onde trabalha?

Dr.ª L.M. - No Centro de Saúde de Odivelas tenho imenso apoio quer por parte da minha orientadora de estágio, Dr.ª Adelaide Laranjeira, quer por parte do pessoal administrativo e do corpo de enfermagem. Treino bidiariamente mas a horas que não interferem com a minha actividade laboral. Detesto faltar ou chegar atrasada onde quer que seja, principalmente ao meu local de trabalho. Quando tenho que me ausentar para competir tenho licença extraordinária ao abrigo do estatuto de alta competição.

As reacções das crianças são as mais inesperadas

M.com – Sente algum comportamento de exclusão por parte dos seus doentes e dos colegas de serviço por ser deficiente?

Dr.ª L.M. - Nunca me senti colocada de parte pelo facto de ser portadora de uma malformação congénita. Bem pelo contrário, mostram-se sempre todos bastante disponíveis para me prestarem algum apoio que necessite.
Quanto aos doentes, os episódios mais caricatos acontecem com as crianças pois as reacções são as mais variadas e inesperadas.

Treino todos os dias

M.com – Que tipo de convivência é que tem ou lhe é proporcionada pelas entidades oficiais no convívio com os atletas ditos “normais” da alta competição?

Dr.ª L.M. - Mantenho uma boa relação com todos os outros atletas. Treino todos os dias de manhã nas piscinas do estádio nacional juntamente com atletas de outros clubes, nomeadamente o Algés, Clube Natação da Amadora, Clube Vasco da Gama, bem como atletas do pentatlo e triatlo. Sabem que trabalho tanto quanto eles dentro de água e por isso respeitam-me enquanto atleta.

Melhor reconhecimento dos paralímpicos

M.com – Já conquistou várias medalhas de ouro, prata e bronze em competições internacionais. Em Portugal, por muito menos, tem havido atletas que tem sido distinguidos pelas mais altas individualidades. Como é que vê o comportamento dessas mesmas individualidades, relativamente aos paralímpicos?

Dr.ª L.M. - Compito há doze anos. Tenho assistido a uma melhoria em termos de apoio e reconhecimento aos atletas paralímpicos. Mas o caminho a percorrer é ainda longo. Sei que um dia os atletas paralímpicos serão tão reconhecidos quanto os atletas olímpicos. Sei também que isso não irá acontecer enquanto estou a competir, mas acredito de alguma forma contribuir bastante para que as novas esperanças paralímpicas tenham um caminho mais fácil pela frente.

“Lutei para ser equiparada aos ditos “normais”.

“Ainda se parte do pressuposto que uma pessoa deficiente não consegue ser eficiente”.

“Tenho por vezes de optar por uma prova em detrimento de outra por falta de apoio”.

“Nunca sonhei com fama e protagonismo, mas sonhei ter o meu momento de glória”.


PERFIL DESPORTIVO

Campeonatos do Mundo

Nova Zelândia 1998

Presença na final da prova – 100m Costas

Argentina (Mar del Plata) – 2002

- 100m Bruços: Medalha de Bronze – Recorde Nacional
- 100m Mariposa: 6.º lugar – Recorde Nacional
- 100m Livres: 11.º lugar – Recorde Nacional
- 50m Livres: 9.º lugar
- Estafeta 4x50m livres: Medalha de Bronze


Jogos Paralímpicos Atlanta 1996

- 100m Livres: Recorde Nacional
- 100m Costas: Recorde Nacional
- 100m Bruços: Recorde Nacional

Jogos Paralímpicos Sydnei 2000

- 100 Bruços: 6º lugar
- 200m Estilos: Recorde Nacional
- 100m Costas: Recorde Nacional

Campeonatos da Europa

Taça da Europa – 2003 – República Checa

- 100m Bruços: Medalha de Ouro
- 100m Mariposa: Medalha de Prata
- 200m Estilos: Medalha de Prata
- 100m Livres: Medalha de Bronze

Taça da Europa – 2005 – República Checa

- 100m Bruços: Medalha de Ouro
- 200m Estilos: Medalha de Prata
- 50m Livres: Medalha de Prata
- 400m Livres: Medalha de Prata
- 100m Livres: Medalha de Bronze

Meeting Internacional – 2002 – Shefield
- 100m Mariposa: 1.º lugar – Recorde Nacional
- 100m Bruços: 2.º lugar
- 200m Estilos: 2.º lugar – Recorde Nacional
- 400m Livres: 3.º lugar – Recorde Nacional
- 50m Livres: 4.º lugar

Meeting Internacional – 2004 – Shefield

- 100m Mariposa: 2.º lugar
- 100m Bruços: 1.º lugar
- 400m Livres: Recorde Nacional
- 50m Livres: Recorde Nacional

Meeting Internacional – 2006 – Shefield

- 100m Mariposa: 1.º lugar
- 100m Bruços: 2.º lugar
- 200m Estilos: 4.º lugar
- 100m Livres: 2.º Lugar
- 50m Livres: 4.º lugar

 

In: site http://www.medi.com.pt/medicom/entrevista_dentro.asp?id=52

publicado por vitorinonuno1 às 08:44
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