Sexta-feira, 20 de Abril de 2007

ANTES DE PEQUIM OBJECTIVO PASSA PELA TAÇA DA EUROPA DE NATAÇÃO ADAPTADA

Aos 29 anos, Nelson Lopes é um dos mais sólidos valores da natação adaptada e um dos maiores exemplos do movimento paralímpico nacional que tantos e tão bons resultados tem vindo a conquistar para o nosso País. Para este atleta portador de deficiência motora, que recentemente bateu dois recordes mundiais nos nacionais de Albufeira em 50 e 100 m costas, o segredo do sucesso está na “teimosia e dedicação”, características que poderão ajudá-lo a conquistar uma medalha no Europeu da República Checa, de 1 a 3 de Junho. Depois, as suas atenções vão centrar-se para Pequim. Após duas participações olímpicas durante as quais não conseguiu concretizar o sonho de subir ao pódio, quem sabe se à terceira não seja de vez…


José Guedes
(fotos) Pedro Melo

Estabeleceu recentemente em Albufeira, no Campeonato Nacional de natação/PCAND, dois recordes mundiais nas disciplinas de 50 e 100 costas. Que balanço faz desta sua participação?
Eu vinha de provas em Espanha que me permitiram avaliar em que momento estava e sentia-me bem. Tendo em conta os tempos que havia conseguido, acreditava que seria possível chegar ao recorde. Nos 100 costas, ele já era meu e, nos 50 costas, já o tinha sido, embora o tivesse perdido para um atleta inglês. Felizmente as coisas correram bem.
Estes resultados foram conseguidos em piscina curta. Sente que os poderá repetir no Eurowaves 2007 que vai decorrer de 1 a 3 de Junho em Brno, na República Checa?
Penso que estes resultados permitem de alguma forma encarar positivamente esse próximo desafio. Normalmente, sou pior em piscinas de 25 metros, mas nunca tinha andado na casa dos 53 segundos em 50 m costas, o que me abre muito boas perspectivas para o que poderei fazer numa competição internacional como a Taça da Europa (Eurowaves). Será mais uma competição durante a qual poderei avaliar o que estou a valer.
Qual o seu objectivo para a Taça da Europa?
Será mais uma etapa na caminhada para os Jogos Paralímpicos do próximo ano. Vou lutar por uma medalha, mas o mais importante será conseguir um bom tempo.
Acredita que estará presente nos Jogos de Pequim?
Neste momento já tenho mínimo nos 50 costas, o que me coloca entre os oito primeiros do Mundo. Veremos como vai ser a minha evolução. Até 2007, os dez primeiros do ranking mundial abrem vagas para cada país e eu estou em oitavo com boas perspectivas, já que os atletas posicionados abaixo de mim estão um pouco mais afastados. Por outro lado, do oitavo ao terceiro lugar a luta é muito renhida, já que nos encontramos todos dentro do mesmo segundo. Só no final do ano se saberá se vou ou não conseguir abrir uma vaga para Portugal em 50 costas.
Caso tal aconteça, repetirá as participa-
ções de Sidney e Atenas, onde não conseguiu alcançar uma medalha. Será que à terceira vai ser de vez?
Vamos ver. No desporto, dizermos antecipadamente que vamos ganhar é suicida (risos). Apenas posso garantir que farei o melhor possível. Se o melhor possível for uma medalha, óptimo.
Esse é um objectivo de carreira?
Sim. É um objectivo. Já conquistei medalhas em Campeonatos da Europa e recordes em Mundiais e Europeus. Penso que só me falta uma medalha nos Paralímpicos. Mas, a minha primeira meta passa por garantir a presença em Pequim 2008 e tentar melhorar a minha classificação de Atenas.
Já completou 29 anos. Começa a pensar em colocar um ponto final na sua carreira depois dos Jogos ou pretende continuar no activo por mais alguns anos?
Os nadadores paralímpicos têm uma carreira um pouco mais longa, porque, até há alguns anos, iniciavam as suas carreiras muito tarde... quando finalmente percebiam que podiam competir. Hoje em dia, felizmente, já se faz a captação de jovens. Mas, mesmo assim, a nossa carreira consegue-se prolongar um pouco mais do que a de um atleta sem deficiência. Houve uma altura em que ponderei deixar de competir depois dos próximos Jogos Paralímpicos. Hoje, acredito que talvez continue mais um ou dois anos. Tenho vindo a evoluir mais do que pensava ser possível e, com uma forcinha, talvez ainda consiga subir mais um degrau antes de abandonar. Será uma decisão ponderada ano a ano.
Como se define como atleta?
Talvez não seja o atleta mais dotado na minha classe, mas serei provavelmente um dos mais teimosos porque vou buscar todas as réstias de energia que tenho em mim e nunca desisto. Treino para estar apto a aproveitar qualquer falha dos meus adversários.
Em que consiste o seu treino diário?
Os meus dias começam às 5h00. Vou a essa hora para o Jamor, onde faço uma sessão de musculação de aproximadamente 30 ou 45 minutos. Depois, treino dentro de água durante uma hora. Às 9h00 começo a trabalhar [funcionário público] e quando saio, às 15h30, repito a rotina de treino no Jamor ou no Colégio Vasco da Gama. Por vezes também o faço na ABVE (Associação dos Bombeiros Voluntários Estoris) que fica mais perto da minha casa e permite-me, ao mesmo tempo, quebrar a monotonia de treinar sempre no mesmo sítio.
É precisa muita força de vontade e grande disciplina...
A longo prazo não é possível conseguir resultados se sairmos à noite constantemente e não descansarmos o que é necessário. O corpo não recupera e é impossível rendermos o mesmo no treino seguinte. Isso paga-se caro durante as provas.
É complicado conciliar a vida profissional com o desporto de Alta Competição?
É difícil. Exige flexibilidade e algum esforço. Felizmente tenho chefias compreensivas e, se preciso de sair um pouco mais cedo num dia ou noutro, não me costumam colocar entraves, o que acaba por me facilitar a vida.
As modalidades amadoras lidam regularmente com a falta de apoios financeiros. No caso dos paralímpicos, sente que têm sido feitos progressos nesse aspecto?
Estão a ser feitos progressos mas continua a ser uma área muito difícil.
No seu caso especifico que apoios lhe são disponibilizados?
Estou inserido no Projecto Pequim e tenho uma bolsa de nível 2 que me permite colmatar algumas das despesas. Mas não cobre todas. Além disso, as bolsas dos atletas paralímpicos ficam muito aquém daquelas que recebem os atletas olímpicos.
E como encara essa discrepância?
Podemos não fazer os mesmos quilómetros que os atletas olímpicos, mas não ficamos atrás em nada no número de horas de treino que dedicamos às nossas modalidades. O esforço e empenho também são os mesmos. Só nos falta maior mediatismo e, obviamente, não existe a mesma quantidade de atletas... ou haveria algo de muito estranho neste Mundo. Mas acho que as verbas destinadas aos paralímpicos poderiam ser um pouco superiores, até porque a nível internacional todas as grandes potências, como a Austrália, o Brasil, a Grã-Bretanha, os Estados Unidos, a Espanha ou a França já equipararam os atletas olímpicos aos paralímpicos. Não existe distinção ao nível de apoios. Seria bom que isso viesse acontecer um dia em Portugal, mas acho que já não será no meu tempo (risos).
Como tem visto o trabalho que vem sendo realizado pela Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes?
Penso que têm conseguido fazer muito pelo desporto adaptado. Tendo em conta os poucos recursos que possuem e o facto de se tratar de uma federação multi-desportiva, julgo que têm feito coisas muito positivas. É claro que queremos sempre mais, mas nem sempre é possível.
É atleta do Clube de Natação do Colégio Vasco da Gama. Sente-se bem aqui?
Muito. Fui recebido de braços abertos pelos treinadores e colegas de natação. Têm feito tudo o que podem para facilitar a minha adaptação e resolver os meus problemas. Ou seja, tenho sido tratado como qualquer outro nadador.
Tem agora novos treinadores. Como tem sido a experiência?
Actualmente os meus treinadores são o Sandro Barão e o professor José Machado e sou o reflexo do trabalho deles. Muitas vezes as pessoas não pensam nos técnicos... limitam-se a olhar para o atleta. Mas, para que os bons resultados apareçam, há muito trabalho que é da responsabilidade dos treinadores. Pessoalmente, sinto que sempre tive muita sorte nesse domínio.

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CONSELHO MÉDICO

DESPORTO ACABA POR SER
UM ESTÍMULO PARA MIM

Possui uma deficiência de ordem motora provocada pela poliomielite. Com que idade é que lhe foi diagnosticada?
Tinha 13 meses quando contrai a poliomielite. Trata-se de um vírus que afecta o sistema nervoso central e corta as ligações destes aos músculos. Em consequência desta doença, caso os músculos não sejam estimulados ou exercitados, vão definhando até desaparecerem.
A doença foi a principal responsável pela sua aposta no desporto...
Sim. Eu iniciei-me na natação por indicação médica, com o objectivo de tentar recuperar o maior número de músculos possíveis e também porque, devido ao facto da doença me ter afectado os músculos, preciso mesmo de os exercitar. Se uma pessoa normal não o fizer, as consequências não são importantes, mas, no meu caso, a minha mobilidade diminui e em vez de andar a pé poderei ter de recorrer a uma cadeira de rodas. O desporto acaba por ser um estímulo para mim.
Como se deu o passo para a Alta Competição?
Aconteceu depois de ter visto uma reportagem sobre os resultados obtidos pelos atletas portugueses nos Jogos olímpicos de Atlanta. Foi a primeira vez que tomei conhecimento da existência de desporto para pessoas com deficiência. A partir daí, procurei saber quem devia contactar para praticar e indicaram-me o meu primeiro treinador, o professor José Pacheco. Nessa altura, treinava na ABVE. Fui evoluindo e os resultados foram aparecendo, o que também fez crescer em mim a motivação e o empenho.

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SANDRO BARÃO

FORÇA E DEDICAÇÃO IMPRESSIONANTES

É responsável pelo treino do Nelson Lopes, conjuntamente com o professor José Machado no Colégio Vasco da Gama. Como caracteriza o seu pupilo?
O Nelson é um atleta dedicadíssimo. Estuda, trabalha, nada, treina com grande empenho e enfrenta um conjunto de obstáculos. Apesar de tudo isso, revela uma força e dedicação impressionantes, ele e os outros atletas da natação adaptada que treinam connosco no Colégio Vasco da Gama. Nadadores como o Nelson dão uma lição de estar no desporto a muitos atletas de outras modalidades desportivas.
O apuramento para os Jogos Paralímpicos é o grande objectivo do Nelson. Caso garanta essa qualificação o que poderá ele conseguir em Pequim? Uma medalha?
Estes serão os terceiros Jogos Paralímpicos em que ele irá participar e cada vez mais se aproxima dos tempos de topo. Como é natural, qualquer atleta sonha com uma medalha nos Jogos e penso que, neste caso, o Nelson também sonhará. Na classe dele há um nadador muito bom que está bastante distante em relação aos tempos do Nelson. Depois, há um segundo nadador que também se encontra num patamar acima. Segue-se um conjunto de atletas, onde se inclui o Nelson, com capacidade para discutir a conquista de uma medalha.
A abordagem ao treino de um atleta de natação adaptada difere muito em relação ao treino de um nadador sem deficiência?
A abordagem é a mesma. É como treinar qualquer outro atleta. Como é óbvio existem sempre barreiras que um atleta com deficiência tem de superar, mas elas não são notórias no dia-a-dia e são facilmente ultrapassáveis. Temos alguns cuidados para que eles sejam os mais autónomos possíveis.

in: http://www.onortedesportivo.com/?op=artigo&sec=1679091c5a880faf6fb5e6087eb1b2dc&subsec=&id=9100f62da920f630bd63e8ee5d1cf002

publicado por vitorinonuno1 às 13:35
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