Sexta-feira, 23 de Junho de 2006

De deficientes a campeões

TORNEIO INTERNACIONAL DE NATAÇÃO INTEGRADA

2006-06-01 19:06:29
São deficientes porque a vida os traiu ou porque assim nasceram. No princípio, praticavam a natação como terapia. Depois passaram a gostar da modalidade e encaram-na, agora, do ponto de vista desportivo.

O cloro fere a vista e enche as cavidades nasais. Estamos no Torneio Internacional de Natação Integrada (Gesloures 2006). O mesmo é dizer num evento em que pessoas sem deficiências nadam, de forma alternada, com pessoas paralisadas nalguma parte do corpo, no cérebro ou com membros amputados.
O evento, da responsabilidade da Gesloures, não foge às regras de torneios organizados com a ajuda de organismos públicos. Dez horas da manhã: Inauguração e discursos. O público respira o cloro e anseia o início das competições. “A integração só é possível se passarmos das palavras aos actos”, afirmou Pedro Cabeça, director da Gesloures.
O cloro fere a vista e provoca sensações quentes e húmidas nas faces expectantes. Os nadadores aproximam-se da piscina. Uns em cadeiras de rodas. Outros em canadianas. E outros ainda a saltar com o seu pé único, evitando não ser vítimas das prováveis quedas que a água, acumulada nos rebordos da piscina, pode provocar. São levantados das cadeiras e colocados junto dos pontos de partida. O seu corpo flutua. Esperam pelo aval do controlador. Assim que foram autorizados a partir, uma panóplia de ondas sonoras invade os ouvidos. São gritos estridentes de treinadores e colegas de equipa. São frases de incentivo de familiares. São expressões de espanto de quem descobre os na-
dadores.
Os nadadores são rapazes e raparigas na flor da idade. Vêm de muitos cantos do país e de Espanha. Para além do gosto pela modalidade, têm em comum o facto de terem transformado a desgraça que um dia lhes bateu à porta em, tal como afirma Nuno Vitorino, veterano da natação adaptada, “persistência” e “vontade de vencer”.
O torneio decorria ao ritmo de braçadas e revelava a coragem dos diversos atletas. No entanto, há uma figura que se evidencia, precisamente a de Nuno Vitorino, não por estar a competir, mas por a sua cara aparecer numa revista interna, colocada em locais estratégicos. “Nuno Vitorino, Exemplo de um campeão”, lê-se na capa que o apresenta. É um homem de 29 anos, sorriso aberto, que com a força dos braços se desloca numa cadeira de rodas. Os seus cinco anos de carreira pelo clube que o descobriu permitem-no tecer comentários concretos acerca do evento: “É fantástico. Permite que pela primeira vez haja uma integração entre atletas deficientes e não deficientes”, disse, acrescentando que “ o desporto não deve olhar a raças ou condições físicas.”

Histórias de vidas

A vida de Nuno mudou a 10 de Maio de 1995: “Estava com um amigo a ver uma arma de fogo. Ele não viu que a pistola estava carregada. Disparou e acertou-me no pescoço”, resume. Mas acrescenta que lhe fez uma “lesão”, ressalvando ainda que “obviamente foi um acidente”. Do dia infeliz à participação em campeonatos internacionais passou anos e horas a treinar. O mundial de Estocolmo haveria de marcar a sua entrada numa competição dedicada a deficientes. “ Foi uma grande emoção”, descreve. “ No meu caso os braços eram a única coisa que restavam e que mexia. Ser classificado para um evento de enorme importância foi apenas o concretizar de um objectivo”, conta num tom humilde.
Mas no fundo sabe que “acima de tudo há que ter muita persistência”, pois nem todos os anos correm bem. A prova disso é o facto de a sua carreira se caracterizar por uma certa irregularidade, variando os lugares conseguidos em torneios internacionais entre o bronze e a prata.
Os nadadores alternam a competição e os treinadores incentivam com gritos de entusiasmo.
Entre os atletas está Maria João Morgado, 27 anos, várias vezes campeã nacional, medalhada de bronze na Taça da Europa de 2003 nos 100 e 200 metros livres e em 2002 no campeonato do mundo, mais precisamente numa prova de estafeta; tricampeã do mundo em 2005 num campeonato para pessoas com paralisia cerebral; professora de natação da Gesloures e uma das prováveis qualificadas para o Campeonato Mundial de Natação Adaptada a realizar-se este ano na África do Sul.
“Para já preciso de confirmar os mínimos de acesso para o campeonato do mundo em provas oficiais. Depois pretendo chegar ao campeonato nas melhores condições possíveis e melhorar a minha marca pessoal”, revelou Maria João Morgado com expectativa em relação à prova.
A atleta, de sorriso constante, é o reflexo de uma história com princípio trágico cujos rumos a vontade de vencer mudou: “Nasci prematura. Não tive força para chorar no momento do parto. E como não chorei, não respirei. Porque não respirei, houve falta de oxigénio no cérebro, que provou uma lesão cerebral, que me causa dificuldade na coordenação motora das pernas, e também na coordenação do movimento destas com o dos braços”.
Mas isso não a impediu de construir uma carreira desportiva, a qual, à semelhança da de muitos nadadores adaptados, começa quando o que inicialmente é feito a pedido do médico é transformado em paixão.
David Grachat e Leila Marques foram outros dos atletas a fazer-se notar durante o torneio. O primeiro foi o mais aplaudido e a segunda demonstrou o porque é que, apesar dos seus 24 anos, é a atleta mais experiente da Gesloures: “Sou atleta da casa desde 1994 e desde esta altura participei em três jogos Paraolímpicos, chegando a estar na final de todos eles”. Em 2002, no campeonato do mundo na categoria de 100 metros bruços, conquistou a medalha de bronze, e ainda diversas medalhas em campeonatos europeus.
O facto de ser campeã nacional e ocupar o terceiro lugar no ranking mundial de 100 metros bruços em natação adaptada faz com que encare o mundial de África do Sul com uma certa ambição. “ O meu grande objectivo nos 100 metros bruços é ir à final e ficar nas cinco primeiras, e nos 400 livres pretendo ir à final e ficar nas seis primeiras”, explicou.
A ambição de Leila contagia o jovem de 19 anos, David Grachat, campeão nacional de natação em 100 Crol.
“No Campeonato da Europa na República Checa ganhei o primeiro lugar nos 400 livres e o terceiro nos 100 Crol”, afirma. No entanto, a sua ida a África do Sul em representação de Portugal está garantida porque fez “os mínimos” que dão acesso ao campeonato. “Tenho objectivos muito puxados. Trazer uma medalha nos 400 livres e estar nos cinco primeiros nas provas de 50 e 100 Crol é o objectivo”, anunciou.
Os três atletas preparam-se assim, para a África do Sul. Leila quer sair bem na fotografia das melhores do mundo; Maria João Morgado quer primeiro confirmar o apuramento e David Grachat pretende alargar a sua experiência internacional. Nuno Vitorino, esse, quer acompanhar de perto os atletas da casa.




Piter Pereira
publicado por vitorinonuno1 às 11:27
link do post | comentar | favorito

.CONTACTOS PARA DIVULGAÇÂO DO MOVIMENTO PARALIMPICO:

MARIA LANITA 932379956 ------------------------- E-MAIL: marketing@fpdd.org

.pesquisar

 

.posts recentes

. Encerramento do BLOG

. 3º CAMPO DE TREINO ANDDEM...

. Atletas melhoram mínimos ...

. CAMPEONATO NACIONAL DE IN...

. Resultados do Campeonato ...

. CAMPEONATO NACIONAL DE IN...

. ...

. CAMPEONATO NACIONAL DE IN...

. DSE Open Championships - ...

. Resultados do OPEN'07

.arquivos

.links

blogs SAPO